sábado, 11 de agosto de 2018

Mentes Sombrias - Comentário

Mentes Sombrias - Comentário

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   Desde que o plot do futuro distópico em que o restante da sociedade está nas mãos de jovens se popularizou com "Jogos Vorazes", diversas franquias tentaram, e conseguiram, inovar esse subgênero de ficção científica. Acontece que a medida que ele foi sendo dissecado mais difícil era reinventá-lo; apesar do entretenimento na forma mais pura ser o objetivo maior a ser alcançado, era preciso bater a qualidade técnica e narrativa atingida pelos três últimos filmes da franquia americana, conduzidos por Francis Lawrence. Infelizmente muitos não puderam perceber isso, como é o caso de "Mentes Sombrias".
   A jornada de Ruby, uma das sobreviventes de uma doença que dizimou a população infantil norte-americana e deu aos que sobreviveram super poderes, a algum lugar seguro para ela e seus amigos, ameaçados por adultos, foi produzida pelo mesmo grupo responsável por "Stranger Things" e "A Chegada". Mesmo assim, apesar da produção prometer um grande longa, o resultado veio em forma de um decepcionante melodrama adolescente com alguns elementos de "X-Men: Primeira Classe".
   Com diálogos rasos sobre superação em equipe, inúmeros coadjuvantes unidimensionais (salvo o personagem interpretado pelo Patrick Gibson) e plot twists previsíveis, o longa não só não nos oferece nada de novo em relação ao subgênero como também peca em lugares normalmente fáceis de serem trabalhados. Apesar de tentarem contornar a situação com sete minutos adicionais no terceiro ato, o que foi desnecessário se levado em conta que mesmo assim os erros não conseguiram ser amenizados, seguido de uma narração final da protagonista, esta que, por sua vez, foi infinitamente mais eficiente do que a tentativa de compensar seus defeitos.


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   Desta forma, restaram somente os efeitos visuais e o carisma dos protagonistas (dando destaque para o alívio cômico que Skylan Brooks consegue equilibrar junto a carga dramática que seu personagem precisa) para salvar o filme de um desastre completo. "Mentes Sombrias" não é o pior filme do ano, ele nos oferece boas atuações e uma qualidade técnica razoável, mas havia muito que ser trabalhado no campo narrativo. 4/10

sábado, 4 de agosto de 2018

First Reformed

First Reformed

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   Paul Schrader, por ser mais agraciado como roteirista (através inúmeras colaborações com Scorcese, como "Taxi Driver", "Touro Indomável" e "A Última Tentação de Cristo") do que como diretor ("Gigolô Americano", "Temporada de Caça" e "O Acompanhante"), nunca havia me achado tanta atenção atrás das câmeras, mas quando eu vi que o nome dele na lista de vencedores do Festival de Veneza do ano passado fui atrás de assistir a First Reformed o mais rápido possível.
   O longa que estrela Ethan Hawke e Amanda Seyfried, e retrata o desespero de um pastor calvinista de uma pequena congregação do norte de Nova Iorque em função da morte de um ambientalista, (passeando dentro de temas complexos como o extremismo contido na mente dos millenials, hipocrisia dentro da igreja e, é claro, fé), não só é um ótimo filme como também um dos mais completos e diferentes do ano até então.
   É de praxe, entre os diretores da geração de Schrader, estabelecer o tom do filme logo no plano de abertura. Com um lento fade-in do ambiente composto de cores neutras que envolve a igreja, podendo-se notar um close na fachada branca da First Reformed quando a imagem já está mais nítida, acompanhado por sons cacofônicos da natureza desde o crocitar de um corvo até a fadiga humana, Schrader busca mostrar que esse filme não é dos mais convidativos, mesmo que aos poucos o longa ofereça ao espectador uma boa recompensa no final.
   Recompensa essa que, para muitos, não virá, levando em conta a infinidade de interpretações que o final aberto oferece. Final aberto, inclusive, que é apenas uma das várias referências à grande influência de Schrader pra esse filme, o minimalista francês Robert Bresson. Para se ter uma ideia o plot de First Reformed é inteiramente baseado no título de um filme do francês, "Diary of a Country Priest". Ainda assim, Bresson não é a única grande personalidade do cinema que é ressuscitada no longa; Há muito de Travis Bickle, personagem de "Taxi Driver" que Schrader escreveu em 75, no reverendo Toller, vivido por Ethan Hawke. Desde a clara busca do "para onde apontar" de suas bússolas morais, passando pela solidão por opção, até os traumas vividos no dia-a-dia que os deixaram tanto inabaláveis quanto niilistas convictos em relação à humanidade, o que atinge seu clímax no mais recente trabalho de Schrader durante a mudança das imagens mostradas no chroma key da cena do "Magical Mystery Tour".
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   A mise-en-scène, por sua vez, sempre busca mostrar o padre como alguém ordinário, às vezes até inferior, em relação aos outros usando a iluminação, por exemplo, para deixar seu personagem sob as sombras de seu superior. O posicionamento da câmera também se mostra relevante em busca de transmitir essa imagem, como com plongées perpendiculares em relação ao chão, dando a impressão que ele está sendo assistido por cima. Ethan Hawke também colabora ao trazer ao máximo a apatia necessária para seu personagem durante o primeiro ato para então, no segundo, se esforçar em investigar algo que, com uma tragédia inesperada, ficou sem explicação.
   Com o segundo ato se iniciam os questionamentos religiosos do filme. "Deus nos perdoaria pelo que fazemos com sua criação", "Se esse é o seu plano, por que ele gostaria de fazer isso?" e "Se Jesus tomou para si os nossos sofrimentos, por que ele nos permite sofrer mesmo quando sempre damos a outra face?" são os mais identificáveis ao longo do segundo ato. Além disso, pelo menos com o arco do Toller, começa a bater de frente a noção sociopata do human of late capitalism que o oprimiu há tanto tempo, já que agora ele percebe que tudo é efêmero, principalmente com o ser humano acelerando o prazo de validade de sua existência, o que o diretor busca saturar com o personagem do Ed Balq.
   Até este momento o filme demonstra ser ultrarrealista, mas com a tomada psicodélica do "Magical Mystery Tour" eu, pessoalmente, comecei a encarar o filme como alegórico. Quem sabe, até tentando dialogar com "MÃE!" do Aronofsky, considerando que pode-se traçar um paralelo entre a ação da humanidade sobre a Terra com a saúde do reverendo, além do mesmo escapar da morte com ajuda de uma mulher chamada Mary grávida de um menino.
   E mesmo deixando isso de lado, "First Reformed" atinge sucesso em ser o filme mais completo e diferente do ano até o momento por abranger de forma razoavelmente profundo tantos temas relevantes nos dias de hoje. Nota 10

terça-feira, 17 de julho de 2018

"Memórias de um Assassino" e a desconstrução do thriller policial

"Memórias de um Assassino" e a desconstrução do thriller policial

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   Uma década antes de atingir sua fama mundial com "O Expresso do Amanhã" e "Okja" o grande expoente do cinema coreano atual (junto com Park Chan-wook), Bong Joon-ho, foi reconhecido pelo thriller policial "Memória de um Assassino" (2003) que conta a história de um departamento policial de um distrito humilde perto de Seoul nos anos 80 e que devem capturar um serial killer.
   Com uma atmosfera noir criada a partir da direção de arte, que visa colocar os investigadores em ambientes claustrofóbicos e insalubres, e da fotografia do Hyung-ku Kim, predominando os tons mais escuros, o longa (tecnicamente) não se diferencia muito de outros filmes do gênero.
   Narrativamente, todavia, "Memórias de um Assassino" conseguiu ser completamente inventivo, não só optando em não se limitar às convenções do gênero como também criando novas estratégias para capturar a atenção do público de formas ousadas, sempre deixando o espectador na dúvida se o assassino será de fato identificado.
   Ousadia essa que, ao meu ver, possa ter servido de inspiração para outro thriller policial, ainda mais popular do que o de Joon-ho, que decide sair pela tangente do que é comumente visto dentro do gênero, "Zodíaco" (2007) do Fincher, apesar dele nunca ter explicitado esta clara inspiração.
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   O que prova a minha teoria é o fato de ambos os longas explorarem suas narrativas tanto pelo ponto de vista dos investigadores quanto pelo o do serial killer, fazendo com que o público saiba de algo que alguns personagens ainda não saibam, o que poderia ser julgado como expositivo.
   Por sorte, e por que não dizer por pura inteligência, ambos os cineastas alcançam êxito em driblar esse defeito. Se no longa coreano podem ser encontradas no roteiro o que pode ser chamado de falsas coincidências, como a captura do suspeito errado e a crença de que o que de fato caminharia para o fim do caso seria um grande equívoco dentro de determinado contexto (contextos esses que, a partir do momento em que o espectador se coloca no lugar do protagonista, percebe-se que estes não tem culpa de pensar que o correto é o errado), no longa estadunidense o espectador é confundido pelas diversas formas que o assassino se apresenta, além do roteiro inteligente achar formas para mostrarmos que o tempo todo estávamos errados.
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   Através de ferramentas, que se manifestam desde uma simples caligrafia até a grande mídia norte-americana, são apontados os erros que cometemos por achar que já resolvemos o caso, o que não impede dos personagens, de certa forma, pedir ajuda ao público por respostas, recurso realizado através de pequenos olhares diretos para a lente da câmera. Ainda de forma mais explícita, este recurso de uma quase-quebra-da-quarta-parede pode ser identificado, principalmente em dois planos específicos.
   O primeiro, logo na primeira hora do filme, aparece com o olhar fixo na lente que Kwang-ho, o jovem debilitado que futuramente será a última esperança de uma testemunha para os policiais, lança quando fala ao gravador do detetive Park, detalhadamente, como foi morta a segunda vítima do serial killer. O segundo, mais icônico ainda, é o plano final onde Park, quase 20 anos depois já numa Coréia do Sul desenvolvida e notoriamente mais cívica (outra virtude do filme é o tempo em que passa, sendo esta talvez uma das únicas chances aos ocidentais descobrirem como a Coréia era antes de seu desenvolvimento definitivo) decide visitar o local em que foi encontrada a primeira vítima, e lá, através de uma garotinha, descobre que o assassino havia visitado o mesmo local, onde "havia deixado algo que fez décadas atrás". Park, então a pergunta como ele era e ela responde "apenas...comum". O filme então se encerra com Park, após esta declaração que claramente não serviu para coisa alguma, olhando fixamente para a câmera (ou o espectador se você preferir), como se falasse que você era o assassino o tempo todo.
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   Curiosamente, Joon-ho já afirmou em entrevista que tinha fé que o filme atingisse tamanha notoriedade que até o assassino acabaria assistindo-o (sim, o filme é baseado em fatos reais, como "Zodíaco"), o que potencia o suspense do filme a uma enésima potência por dar ao público a esperança de que o assassino, de certa forma conseguiu ser capturado, ainda que não fisicamente.
   Por fim deve ser apontada a forma que o filme conseguiu explorar como o trabalho de detetives pode afetar sua vida pessoal. Até o lançamento de "Memórias de um Assassino" nunca havia sido abordada de maneira tão profunda o papel que outras pessoas tem sobre um caso difícil da polícia e como este, por sua vez, afeta as outras pessoas. O mais próximo que alguém conseguiu alcançar foi o Hitchcock com "Um Corpo que Cai", mas, novamente, nada com muita profundidade. Este recurso de mixar essas duas realidades, dentro e fora do escritório da polícia, por outro lado, se tornou cada vez mais comum nos thrillers policiais. Martin McDonagh, por exemplo, utiliza frequentemente esse recurso, como no arco do Chief Willoughby em "Three Billboards".
   Bong Joon-ho, quando produziu esse longa, ambicionava muita coisa, mas com certeza não poderia imaginar que seria um divisor de águas. "Memórias de um Assassino", portanto, não deve ser apenas lembrado como um excelente thriller policial, mas como o filme que reinventou seu gênero.

terça-feira, 10 de julho de 2018

"Tangerines" - O retrato dos conflitos no Cáucaso pós-URSS

"Tangerines" - O retrato dos conflitos no Cáucaso pós-URSS

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   Ivo, um dos últimos camponeses que ficaram em sua região, que se tornou campo de batalhas entre chechenos e georgianos no início dos anos 90, não só ajuda seu vizinho na colheita de tangerinas como também prevê um conflito desnecessário após dois soldados de exércitos divergentes ficarem feridos em um tiroteio em frente a sua casa, o obrigando a ajudar na recuperação de ambos enquanto um ameaça à morte constantemente o outro.
   Com um ritmo suave, tendendo ao arrastado, o diretor de fotografia, Rein Kotov, opta por uma predominância do movimento da câmera para que o tom de monotonia do segundo ato não prejudique ainda mais o filme. Aliás, eu não pude identificar sequer um plano estático no longa inteiro.
   Narrativamente, entretanto, ele chega perto de ser impecável. Dosando precisamente o drama pessoal com a ação, o longa nos oferece uma visão ampla de uma guerra quase que civil onde todos se tratam com desconfiança pelo fato de ser difícil de diferenciar membros dos dois exércitos.
   O conflito inicial de "Tangerines", como já dito, se estabelece com dois soldados de frentes opostas que buscam vingança um do outro pela morte dos parceiros enquanto se recuperam de um tiroteio na casa de um pacifista. A construção de um conflito complexo como este é algo muito difícil de alguém acertar completamente e, infelizmente, esse filme não acerta.
   Entre os poucos defeitos do filme esse é sem dúvidas o mais comprometedor. O roteiro co-escrito por Zara Urushadze e Tatjana Mülbeier não investe em uma profundidade necessária num sentimento de rancor e ódio entre os dois até que seja tarde demais e eles façam as pazes devido ao amor que Ivo emana. Até lá a motivação mais crível para um querer matar o outro é quando um chama o outro de ignorante por escolher defender o lado "errado" da causa, o que não deixa de ser um paralelo com o que ocorre nas redes sociais atualmente. Por outro lado, a resolução desse conflito raso traz como fruto um clímax narrativo e técnico (no trecho a produção evidencia sua maestria na edição de som e fotografia em um fascinante plano sequência) que de tão absurdo o torna o mais realista o possível dentro do contexto daquela guerra.
   Sendo um filme pequeno, o proporcionalmente diminuto perece, de início, não ons prometer muita coisa, mas aos poucos os 4 protagonistas vão entregando performances intimistas e cheias de nuances, considerando que as características mais notáveis dos personagens são dificilmente identificadas, sendo a única exceção a compaixão de Ivo.
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   Com menos de 90 minutos Zara Urushadze não só conscientiza o espectador sobre a pouco conhecida, porém devastadora, Guerra da Abcázia, como também passa uma mensagem de tolerância sem ser moralista, tampouco irritante, ainda dando tempo de utilizar uma oportuna metáfora entre uma colheita de tangerinas e a fé na humanidade, apesar de alguns pormenores narrativos que não chegam a estragar tudo o que acabei de relatar. 7.5/10

sábado, 30 de junho de 2018

"Os Incríveis 2" foi capaz de superar nossas expectativas?

"Os Incríveis 2" foi capaz de superar nossas expectativas?

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É muito esperado quando um filme que marcou uma geração inteira decide fazer uma continuação (e muito receio envolvido para saber se a qualidade da sequência será igual ou maior ao trabalho original). Felizmente "Os Incríveis 2" supera as expectativas até dos mais otimistas e saudosistas.
Além do primeiro ato sanar algumas perguntas que ficaram abertas no desfecho do primeiro filme, como quem era o Underminer, se o JackJack realmente adquiriu superpoderes ou o que houve com Tody Rydinger, ele também levanta questionamentos pesados mas abordados de forma leve e bem-humorada para que todos os públicos entendam, como "Até que ponto o que é legal também é moral?" e críticas ao sistema de educação norte-americano.
É também bastante visível que o cenário voltado ao "American Way of Life" dos anos 50 que aparece no primeiro filme permaneceu na sequência. Figurinos e fotografia, com paleta de cores repleta de tons mais pasteis das obras de publicidade daquela época, também ajudam a identificar essa homenagem àquela época, assim como a trilha sonora, cujos temas são repletos de metais.
Quem também não mudou foi Brad Bird, o realizador. De 2004 pra agora ele buscou não saturar a fórmula PIXAR de roteiro (exceto em "Ratatouille", também de Bird) até seu novo longa. Ao contrário do que muitos pensavam esta saturação não é ruim como um todo. Sim, vemos mais do mesmo (personagens de mentalidades opostas aprendendo lições sobre a vida e descobrindo novas habilidades), mas "Os Incríveis" foi um dos casos mais bem-sucedidos com o uso desta fórmula, sendo assim injusto (pra não dizer também que seria burrice) sua sequência vir com uma proposta narrativa completamente diferente. Mas então, o que exatamente não nos cansa dessa fórmula nesse filme? A resposta é bem clara: o desenvolvimento dos personagens. "Os Incríveis 2" possui vários coadjuvantes e permite ao público saber ao menos um pouco sobre cada um (principalmente as motivações do antagonista, algo que não via ser tão bem executado desde "Toy Story 3"), o que talvez seja a maior virtude da sequência.
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Algo que também é extremamente elogiável é o trabalho das vozes. Desde o cansaço físico demonstrado na voz de Bob Parr até a marra do Frozone (no filme tem uma piada que faz referência ao icônico "Honey, where is my super suit?", fiquem atentos), os dubladores mostraram que compreenderam desde o início a proposta deste filme, tornando seu trabalho não só bastante realista, mas também identificável.
É difícil apontar "Os Incríveis 2" como o melhor filme da PIXAR, ou até mesmo decidir se a continuação é melhor do que o filme que deu origem a este, mas supera todas as suas expectativas com sua qualidade técnica e narrativa, ainda que esta pese um pouco por quase não renovar em nenhum aspecto a fórmula PIXAR, que aos poucos vem se tornando tão batida quanto a da Marvel.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Hereditário - Terror ou drama familiar?

Hereditário - Terror ou Drama familiar?

Hereditário, dirigido pelo estreante em longa-metragens Ari Aster, conta a história da família Graham que após a morte de sua matriarca passa a viver uma série de tragédias que podem, ou não, terem alguma ligação com as crenças da finada Ellen Leigh Graham.
A partir plano inicial, composto por um close-up em um dos cômodos da maquete da casa dos Graham, construída por Annie (Toni Collette), onde aparecerão os personagens de Alex Wolff e Gabriel Byrne (como aquele em Paddington), Aster já expõe o seu objetivo em identificar o mórbido no cotidiano e, em algumas vezes, no relacionado ao infantil. Não de uma forma extravagante e exagerada como na franquia "Premonição", mas quando temos aquela dúvida se realmente vimos um demônio caminhando pela sombra da quina escura da sala. "Hereditário" explora muito bem o famigerado frio na espinha.
Ainda assim, o longa aborda diversos temas não relacionados, necessariamente, com o terror. Desde dramas familiares até condições relativamente comuns como anafilaxia, o que explica a polêmica declaração de Aster em que ele disse que seu longa não se trata de um terror, mas sim de um acompanhamento sobre como um trauma familiar pode evoluir ao execrável. Apesar de eu reprovar essa nova cultura entre os diretores de sugerir como os espectadores devem interpretar o filme (Tom Ford com "Animais Noturnos" e Aronofsky com "mother!"), Aster não deixa de estar certo já que, de fato, "Hereditário" é um drama familiar envernizado com ocultismo.
Com Annie, por exemplo, nos primeiros 20 minutos do filme somos informados, com uma confissão dela no grupo de acompanhamento de luto da igreja, de sua infância traumática. De início esta informação parece irrelevante, mas aos poucos notamos certos padrões entre o que ela contou e o que está acontecendo no presente. Ainda assim certo ciclo não chega a ser tão identificável quanto em "MÃE!" já que, assim como em "Corra", você nuca teorizará o bastante para realmente saber o que vai acontecer até que aconteça. São estas incógnitas disfarçadas de animais, personagens secundários e objetos meramente decorativos que num futuro não muito distante se encaixarão de uma forma que o público jamais imaginaria que tornam esse filme o clássico instantâneo do terror que todos estão dizendo.
Outro fator que colabora com essa ótima recepção geral que o filme andou recebendo é o fato de Aster estar ciente de que o medo é relativo. Assim, seu roteiro explora diversas vertentes do gênero, desde os famosos jumpscares (aliás, a mixagem de som desse filme é excelente pois não só explora a cacofonia de uma forma extremamente perturbadora, como também é montada de uma maneira que há muito tempo não via, ou ouvia), passando pelo terror psicológico e chegando no limite do caótico gore inserido no dia-a-dia (anafilaxia é bem pior do que eu pensava) de "Premonição".
Tecnicamente o filme não apresenta nenhuma falha notável. A fotografia de Pawel Pogorzelski trabalha de forma excepcional um jogo de luz e sombra que ativa a imaginação do espectador, sendo o maior responsável pelo terror psicológico presente no longa. A montagem é extremamente competente quando opta por menos jumpcuts quando a tensão cresce, sabendo controlar um ritmo incrivelmente equilibrado para o gênero. Por fim, a direção de Aster se mostra excepcional para um estreante considerando que ele se mostra ciente de que o que ele criou tem potencial e aplicando esse potencial em diversas vertentes do gênero tanto no cenário quanto m seus atores.
Por falar na atuação, esta é provavelmente o melhor elemento da mise-en-scène do longa. Alex Wolff e Toni Collette me surpreendeu ao mostrar que às vezes a melhor escolha é surtar. Existem algumas cenas que eu pensava "se eles fizessem algo ponderado, equilibrado, mostrando que seus personagens permaneciam sãos, ficaria melhor do que o que estou vendo?" e sempre nessas horas chegava a conclusão que o jeito que foi mostrado em tela, com os personagens enlouquecidos, foi a melhor alternativa (ao menos dentro daquele contexto). Milly Shapiro é outra estreante e outra que me surpreendeu: apesar de não ter tanto tempo de tela assim, ela parece sempre estar presente devido à forma ímpar de como ela vive sua personagem. Gabriel Byrne de vez em quando quase que opera como antagonista da personagem da Toni Collette, mas essa relação conflituosa geralmente colabora com o crescimento da tensão. Ann Dowd me surpreendeu pela importância de sua personagem, que de início eu considerava quase que inexistente.
"Hereditário" já pelos 30 minutos rouba o posto de terror do ano de "A Quiet Place". Sua grande virtude está na grande variedade de terrores que o filme explora junto com excelentes interpretações e um pano de fundo identificável. Já a ótima direção estreante e aspectos técnicos impecáveis apenas reforçam estes fatos. Ainda deve existir uma alegoria com os insetos que eu não pude entender, quem sabe lendo o roteiro com calma, mas isso não interfere em nada. Nota 10.

domingo, 3 de junho de 2018

Disobedience - Quando nossa liberdade é afetada pelas nossas crenças

Disobedience - Quando nossa liberdade é afetada pelas nossas crenças

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Após sucesso com “Uma Mulher Fantástica”, portas se abriram para o chileno Sebastian Lelio. Disobedience, sua primeira produção em língua inglesa, conta a história do romance proibido de duas mulheres de uma comunidade judaica em Londres.
Iniciando-se com um plano holandês filmado de baixo pra cima que incorpora o imponente Anton Lesser como o rabino Kushka, o filme já começa apresentando, de forma simples, as figuras religiosas como superiores. Em contraste disso, ao cortar para a filha do rabino, Ronit, vivida por uma altiva embora culpada Rachel Weisz, é introduzida quase de cócoras em relação à sua câmera, representando a submissão feminina dentro deste mesmo contexto religioso.
Após a revelação da morte do pai, o gatilho para a volta de Ronit a Londres, Weisz trabalha de forma magnífica o estado de choque de sua personagem, se mostrando vulnerável não só psicologicamente como também fisicamente (mérito também do roteiro que explora Ronit em situações mundanas que evidenciam sua apatia devido ao luto. Roteiro esse que é co-escrito por Lelio e Rebecca Lenkiewicz, conhecida por “Ida”).
Logo que a trama passa a focar na comunidade judaica londrina e introduz o casal dos amigos de infância de Ronit, Dovid e Esni, que a hospedam em sua casa; se torna evidente o contraste do preto e branco como indicador do pecado, desde sombras ao quase breu, estratégia já usada pelo diretor de fotografia, Danny Cohen, em “A Garota Dinamarquesa”. Além disso, as primeiras cenas que se passam em Londres são responsáveis por estabelecer certos elementos que serão importantes até o fim do longa, como a mútua desconcertância que a presença de Ronit e Esni (Rachel McAdams) fazem uma para outra. Além disso, a já citada submissão da mulher dentro do tradicionalismo religioso abordado é intensificada pela marcante atuação contida de McAdams, sempre sussurrando algo de natureza passiva e olhando para baixo.
Com o início do 2º ato, Ronit se mostra cada vez mais culpada devido a pressão social que colocam sobre ela por não ter acompanhado os últimos anos do pai. De forma indireta, isso se torna a razão de Ronit e Esni finalmente revelarem o que sentem uma pela outra, fazendo elas mudarem totalmente de comportamento. A partir do momento que seu relacionamento secreto passa a afetar a vida dos outros,  os três protagonistas se encontram em um embate que se perpetuará até o desfecho do longa.
Por sorte, Lelio nos oferece compreender o ponto de vista de Dovid (vivido por um inabalável Alessandro Nivola), um homem extremamente ligado à religião e um marido fiel, ainda que às vezes possa não haver reciprocidade em seu casamento. Como se já não bastasse, para intensificar a dramaticidade de um dos melhores desenvolvimentos de 2018 até agora, Lelio abusa e acerta no uso de uma de suas marcas registradas: a trilha sonora não-diegética suave definida por dois temas que, apesar de se repetirem constantemente, nunca se tornam repetitivas, poeticamente casada com relacionamento das duas protagonistas femininas, que ocorre, principalmente,  pela impressionante química das Rachels. Um ótimo exemplo é na cena no hotel, onde, inclusive, ocorre uma transição no mínimo interessante devido à sincronia com a edição de som embora já batida com relação à câmera de Ronit (cena que pode ser vista no trailer).
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O 3º ato, por sua vez, é extremamente sufocante. Não só aborda temas profundos e difíceis de serem debatidos como liberdade, fé e amor, como também é o mais esteticamente diversificado. Volta-se aqui o uso de planos holandeses, junto com uma constante troca de planos fechados com planos abertos, representando o nervosismo e a vulnerabilidade de todos os três protagonistas, além da angústia representada pela ausência de foco da câmera.
“Disobedience” é belíssimo pois não só funciona muito bem como um romance como têm performances incríveis e bem ponderadas, um roteiro que explora temas complexos de formas simples mas não ao ponto de se autoexplicar como um Nolan. Possui uma montagem interessante e é esteticamente limpo. Disobedience chegou muito perto da perfeição. Se o corte final viesse três minutos antes ele poderia se tornar um clássico instantâneo, mas a opção de Lelio de estender o roteiro em mais duas cenas é relevada pela incrível abordagem do questionamento sobre até que ponto nossas crenças afetam nossa liberdade. Nota 10